sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Quem vota em cabra safado / Assina um cheque pro Cão



I
Quem vota errado detona
É um ser sem consciência
Vender voto tal demência
Bota seu voto na lona
O poder virando a zona
Reino da corrupção
Transparência não tem não
No fim o povo é ferrado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
II
Quem vota sem ver a vida
O passado de um sujeito
Vai eleger neste pleito
Uma alma empedernida
Não tem volta só tem ida
Ao eleger tal ladrão
Pois tem alienação
Eleitor desinformado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
III
Recebe os seus presentes
Vende barato no fim
Seu voto vira chinfrim
Votando nos indecentes
As pessoas mais carentes
Nos guetos da exclusão
Vivendo na precisão
Vendem seu voto ao danado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
IV
Vota em cabra mentiroso
Safardana e traidor
Que se esquece do eleitor
Vai pro banquete o guloso
Tem muito cabra seboso
Por aí na eleição
Que engana o cidadão
Com gesto dissimulado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
V
Promete pra não cumprir
Se não tem um compromisso
No poder virando omisso
Contra o povo decidir
Tem o dom de iludir
Mente na televisão
Seu falar toda ilusão
Pra eleitor abestalhado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
VI
Usa o poder do dinheiro
Distribuindo favores
Os seus colaboradores
São do bando mais fuleiro
Satanás é seu parceiro
Agente do cramulhão
Votar vendido é em vão
E quem o faz um coitado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
VII
São os vermes no poder
Piratas de toda cor
Com discurso enganador
Pro povo não perceber
Seu engodo conceber
Seu ardil na falação
Parasitas da Nação
Poder desmoralizado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
VIII
Oferecendo um céu
Pra depois virar inferno
Usando seu fino terno
Roubalheiras pra dedéu
Fazendo tosco escarcéu
E nem aí pro povão
Esconde sua intenção
Pra enganar o abestado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
IX
São porcos no parlamento
Capatazes dos patrões
As propinas são milhões
Mentira seu instrumento
Quem vota num lazarento
Vai ter a decepção
Ele nega dar a mão
Depois de ser diplomado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
X
Consciência é o remédio
Pra não votar num vampiro
Saber passado eu prefiro
Pra detonar todo assédio
E por abaixo seu prédio
Detonar a enrolação
Do povo é a decisão
Pra ir em rumo acertado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
XI
Ver apoios da campanha
Quais interesses defende
Querer saber não ofende
Pra evitar tanta manha
Se um canalha assim ganha
Vai ser uma perdição
Quem vota com pé no chão
Elege um cabra honrado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão
XII
O poeta aqui opina
Pra ver seu povo desperto
De olho no porco esperto
Pra ver mudar sua sina
Não votar mais na rapina
Fazer a transformação
Se não faz revolução
Dar voto certo é arretado
Quem vota em cabra safado
Assina um cheque pro Cão.

sábado, 2 de agosto de 2008

NAQUELE DIA EU BROCHEI



I
Dia de segunda-feira
Eu sempre naquele bar
Lá no Pátio de São Pedro
Pra minha turma encontrar
Como eu os trovadores
De violão tocadores
Só coisa boa a tocar
II
“Meu Refúgio” era o lugar
Onde meu povo ficava
Um deles no cavaquinho
Belos chorinhos tocava
Sem claque de auditório
O talentoso Tenório
Ali nas cordas mandava
III
Ali do lado eu estava
Duas mulheres entraram
Uma coroa e uma nova
E bem do lado sentaram
Ouvindo o nosso som
Acho que acharam bom
Pediram se aproximaram
IV
Meus olhos então brilharam
A mais nova assim chegou
Pediu uma do Roberto
E esse poeta tocou
Era sim muito vistosa
Bem feita e muito gostosa
O cabra aqui se ligou
V
Meu amigo nos deixou
Teve que sair embora
Despediu-se educado
Pegou a reta pra fora
Foi cuidar das coisas suas
Eu ali com essas duas
Duas da tarde era a hora
VI
E assim sem mais demora
A coroa foi também
Eu ali com a mocinha
Pensando: vou me dar bem
O clima foi esquentando
Eu proseando e cantando
Conversa vai também vem
VII
Eu tinha algum vintém
Dava pra gastar direito
Aquela mulher bonita
Belas coxas e cada peito
Fazendo chamego nela
Uma e outra pegadela
E a coisa pegando jeito
VIII
Ela ajeita, eu ajeito
A moça me convidou
- Vamos pra um lugar “mais calmo”?
Meu pau na calça pulou
Era pra um restaurante
Dali não muito distante
No AIP que rolou
IX
A gente ali chegou
Vixe que vista bonita
Eu chamegando com ela
Com xaveco e rola aflita
Tasquei-lhe um beijo arretado
De língua doido e molhado
Tesão que coisa bendita
X
Saudade da periquita
Eu num atraso do cão
Algum tempo separado
Com muitos calos na mão
Eu ali fungando junto
Ela mudou de assunto
Foi dando uma explicação
XI
- Escuta aqui ô paixão.....
Disse ela bem manhosa
Hoje é segunda-feira
Dia de ser preguiçosa
Nesse dia não trabalho
Eu passeio, durmo ou malho
Ou bebo loura espumosa
XII
E continuou dengosa:
- Achei você tão legal
Educado e carinhoso
Etc. coisa e tal
Mas lá onde eu “batalho”
Pro cabra quebra seu galho
Eu cobro é “cinqüenta pau”
XIII
De você “vinte real”
É quanto que vou querer
Eu fui com a sua cara
Tocou pagou pra eu beber
Aí, tudo acabaria
Como ducha de água fria
Na chama quente a arder
XIV
-“Onde nós vamos meter?”
Disse assim bem desbocada
Eu disse: -mudei de idéia
Ela ficou bem irada
Deixe de ser pirangueiro
Eu vi, você tem dinheiro
Carteira bem recheada
XV
Eu disse pra essa danada
Menina veja o coroa
Descasado e tão carente
E vendo mulé tão boa
Eu pensei ter conquistado
Mas iludido e abestado
Imaginei coisa à toa
XVI
Olhe pra minha pessoa
Bonito, forte e sabido
Não preciso pagar gente
Pra aliviar tal libido
Menina linda me escuta
Se eu quisesse prostituta
Noutro lugar tinha ido
XVII
Eu ali sem alarido
Veja que situação
Eu pensei ser bola cheia
Mas no fim outra ilusão
Romance ali? Que nada
Encontrei uma folgada
Quenguinha por profissão
XVIII
Ela vendo eu dizer não
Dizendo não me entender
Como que um cabra macho
Desistindo de fazer
Com desconto e bem barato
Amor barato de fato
Impropérios foi dizer
XIX
- Que cabra frouxo é você?
Correndo duma mulé
Coitada não entendia
Como a coisa toda é
Na mesa do lado estava
Outro cabra que escutava
Ouvindo de orelha em pé
XX
Chamei garçom Seu José
Pra minha conta pagar
O cabra de olho nela
Eu disse: - pode encarar
Ela se foi ligeirinha
Pra mesa dessa morrinha
Ali pra negociar
XXI
Eu fiquei a matutar
Um pensamento na mente
Deixe a moça e o cabra
Fornecedora e cliente
Na profissão mais antiga
Mas procurar rapariga
Quem for macho incompetente
XXII
Quero uma trepada decente
Na vida assim me toquei
Não recrimino quem busca
Mas outra meta eu tracei
Fiquei sem gás, nem pra bronha
E conto aqui sem vergonha
Naquele dia eu brochei
XXIII
Com putas muito transei
Quando era mais menino
Não sabia me virar
Era sem graça e franzino
Mas depois melhoraria
De outro modo faria
Teria outro figurino
XXIV
Assim o verso eu termino
Palavras aqui não somem
Você que faz como quer
Dilemas que nos consomem
Ô perguntinha mais tola
O homem que tem a rola?
Ou ela é que tem homem?

segunda-feira, 28 de julho de 2008




Este singelo cordel é uma brincadeira com o título do livro de poesia LEGADO DA ALMA do meu amigo Nivaldo Lemos, durante uma breve conversa pelo MSN com o também poeta Rogério Generoso, eu disse que ia lançar um livro chamado LEGADO DA ALMA SEBOSA, depois vi que LIGADO NA ALMA SEBOSA era uma glosa pra versar sobre o medo de assalto em ônibus que me fez optar pelo táxi depois de certa hora em nosso Recife. É uma brincadeira com muito fundo de verdade.

ALLAN SALES
I
Um dia em Água Fria
Tinha um mala me olhando
A minha bolsa filmando
Perto da casa de tia
Eu ali naquela via
Lamaçuda e tortuosa
Uma rua escabrosa
Nem alma viva na rua
Eu ali na noite crua
LIGADO NA ALMA SEBOSA
II
O cabra foi me seguindo
Lá bem perto do Arruda
Uma rapariga muda
Tava ali se exibindo
Avistei primo Laurindo
Com sua mulé gostosa
O nome dela era Rosa
Ficamos sim proseando
E eu ali matutando
LIGADO NA ALMA SEBOSA
III
Eu subi num busão cheio
O cabra subiu também
Na frente dum armazém
Subi um cana no meio
Eu parei o meu receio
Que sorte mais venturosa
Com meganha levei prosa
Mas não entreguei o mala
Com medo de levar bala
LIGADO NA ALMA SEBOSA
IV
Mas lá na Encruzilhada
O cana grande desceu
Aí um medo que deu
A minha vida ferrada
E tome mais uma parada
Suadeira pegajosa
Uma mocinha formosa
Que nessa hora subiu
O medo não se exauriu
LIGADO NA ALMA SEBOSA
V
Na João Barros desceram
Metade dos passageiros
Subiram dois maloqueiros
Que muito medo meteram
Assim que todos tremeram
Cobradora cabulosa
Era velha e adiposa
Motorista no cagaço
Com um frio no espinhaço
LIGADO NA ALMA SEBOSA
VI
No 13 de Maio tinha
Da PM a viatura
A noite era escura
Mas com PM vizinha
Essa trinca da morrinha
Segurou a polvorosa
Cidade tão perigosa
Eu ali apavorado
Meu destino então chegado
LIGADO NA ALMA SEBOSA
VII
Dantas Barreto enfim
Esperando com aflição
Demorando meu busão
Chegou bem junto de mim
E me falando assim
Uma fala cavernosa
Era essa alma tinhosa
Pedindo uma informação
Queria o Alto Jordão
LIGADO NA ALMA SEBOSA
VIII
Fui pegar o Brigadeiro
Ali bem perto parava
O mesmo cabra chegava
Eu aí caguei inteiro
Lá se foi o meu dinheiro
Pensei nessa rebordosa
Mas a sorte caprichosa
Uma torcida chegou
Depois que o jogo acabou
LIGADO NA ALMA SEBOSA
IX
Não fiquei aliviado
Era cabra de montão
Torcida braba do cão
Seu time foi goleado
Cobrador preocupado
Torcida tão furiosa
Não no busão da Pedrosa
Que em Água Fria peguei
Foi aí eu me assustei
LIGADO NA ALMA SEBOSA
X
Vi então Nivaldo Lemos
Subir ali no Bradesco
Com uma camisa da UNESCO
Nivaldo e eu nos vemos
Noutra parada descemos
Pra tomar uma gasosa
Que coisa maravilhosa
Tinha grana esse sacana
Pagou um táxi bacana
LIGADO NA ALMA SEBOSA



Esta singela peleja ocorreu na manhã de 23 de julho de 2008 pelo MSN, Allan Sales e Felipe Junior estréiam sua primeira peleja virtual em clima jocoso e amistoso entre os poetas do folheto de cordel que desenvolvem extensa atividade de recitais em eventos literários.

Dom Hélder diga quem foi? (FELIPE)
Um cristão bem verdadeiro (ALLAN)
Quem foi "Antôim" Conselheiro?
Não quis a canga de boi
Você tem um TIM ou Oi?
A OI é pau no culhão
O que preferes então?
Um CLARO desbloqueado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão

Que foi Dom Pedro Primeiro?(ALLAN)
Imperador do Brasil (FELIPE)
Que é esse Clodovil?
Deputado pirangueiro
Santos Dumont pioneiro?
Precursor da aviação
Que foi o rei do baião?
Pai do forró e xaxado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão

Caro Allan, quem foi Filó?
Um cabra que tem valor
Diga: ele foi locutor?
Não sei, mas teve gogó
Ele foi primo de Jó?
Só perguntando ao irmão
E ele mora no sertão?
Está no céu meu prezado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Quem foi Lourival Batista?
Repentista de primeira
Pelejou com Zé Limeira?
Não está na minha lista
Dom Hélder foi comunista?
Um comunista? Foi não
Maluf , esse é ladrão?
Corno, ladrão e viado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Tu sentes falta do Crato?
Nem um pouco companheiro
Mas por que, grande parceiro?
Recife me deu bom trato
Jerry ou Tom que é o gato?
Tom o gato é viadão
Porque essa conclusão?
Tudo americanalhado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Vais casar com a morena?
Em junho do ano que vem
Eu vou pra festa também?
Com certeza tens a cena
Faremos a cantilena?
Mas só na recepção
Lua de mel no sertão?
Talvez, mas vai ser pensado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Quem é dom José Cardozo?
Uma bicha e abusada
Será que tem namorada?
Um negão bem musculoso
Tu achas ele orgulhoso?
Orgulho de que? Bundão
És judeu ou és cristão?
Um ateu juramentado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Que achas do presidente?
Bom! Nele voto de novo
João Paulo baba seu ovo?
Baba um pouco só de frente
Jarbas bebe aguardente?
Pertinho de Henry, vai não
Vai com Raul?Ou na mão?
Com Henryzinho é sagrado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Tu vais com seu João da Costa?
Do lado costa e de frente
Quem vai ser o presidente?
Só Alah sabe a resposta
Tu preferes merda ou bosta?
Um tolete bem grandão
Pra colocar onde, irmão?
Lá na mesa do senado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão.

Gostou de assim pelejar?
Rapaz, foi fenomenal
Vamos botar no jornal?
O povo vai adorar
Se o povo nos processar?
A gente paga a pensão
Pra escapar da prisão?
Não, só quem foi lesado
Isso é mourão perguntado
Isso é responder mourão

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O PREGADOR QUE FUMAVA..

Estamos no TIP, perto das 8 da manhã, eu e o poeta Adiel Luna rumo a Bom Nome, de onde nos deslocaremos para Belmonte aonde nos apresentaremos no dia seguinte, uma sexta-feira na praça pública, em companhia do grande Chico Pedrosa e do repentista José Oliveira, será nossa versão em quarteto de CANTORIA DECLAMATÓRIA.

Embarcamos com a primeira parada prevista em Caruaru, aonde sobem outras pessoas a bordo do ônibus, cujo destino final é em Marabá-PA e que segue varando o sertão de Pernambuco. Ao retomarmos a viagem, notamos que um jovem rapaz se despede emocionado de sua mãe:- adeus mãinha , fica com Deus…. foram essas suas emocionadas palavras entre suas sinceras lágrimas que não escondeu de todos que perto testemunharam esse seu momento de vida.

Eu seguia numa animada e gaiata conversa com meu bem humorado de sempre parceiro Adiel. Pondo as conversa em dia, ele me contando seus causos e me falando dos seus projetos e inquietações, muita galhofa da parte dele e da minha, comentando sobre os dotes físicos de uma potranca que também embarcara em Caruaru, sentada duas poltronas atrás das nossas. Quando passamos por Cruzeiro do Nordeste, eu comentei acerca de uma estátua do Padre Cícero e da minha ausência de fé na santidade do padre do Juazeiro.

O rapaz que se despedira da mãe de forma emocionada, carregava em suas mãos uma surrada bíblia protestante, entra na conversa condenando a idolatria católica, abre sua bíblia numa página que ele conhecia o que esta continha e passa a recitar versículos do velho testamento condenando os bezerros de ouro,etc. Nossa, o rapaz de olhar esperto, fala derrapando no vernáculo denotando carência de escolaridade, mas de uma desenvoltura danada quando o assunto são as sagradas escrituras. Falava com muito gosto e entusiasmo e demonstrava conhecer bem o livro.

Eu pergunto pra ele qual a sua congregação, no caso a Assembléia de Deus, à qual ele se converteu nos tempos em que morou com um tio em Maceió, antes de vir morar por dois anos com sua mãe em Caruaru. Ele fora o responsável da conversão da mãe, de católica fervorosa em evangélica, mas ele mesmo se dizia um “crente desviado”, denominação que eles dão aos irmãos de fé que se afastam dos desígnios da igreja.

Eu pergunto o que ele acha de Edir Macedo e sua voracidade pelo dízimo do rebanho, falo pra provocar o rapaz, Adiel do lado se divertindo de monte. Ele conta que uma vez entrou por curiosidade num templo da igreja do Macedo em Caruaru, segundo ele, o pastor dizia: - se sua fé é grande, ponha cinqüenta reais, se não for tão grande ponha vinte reais, e assim por diante, graduando o valor da fé das pessoas em função daquilo que elas põem no envelope. Ele mesmo se dizia indignado com essa voracidade materialista desses pregadores, muito embora concordando com necessidade da doação pra manter as obras de Deus .

Dito isso, nosso jovem companheiro de viagem começa com uma saraivada de citações na bíblia falando acerca da doutrina do dízimo. Puxa vida, o cabra conhecia bem o livro, tinha muitas coisas sublinhadas com caneta fluorescente, de modo que falava com grande entusiasmo, denotando uma sinceridade comovente naquilo que falava.

Adiel, sempre sacana pergunta por que ele não se tornara pastor, ele responde que até pensou, mas não “criou coragem” de encarar o seminário, provavelmente usando a palavra coragem como eufemismo para não falar de inaptidão causada por sua escolaridade insuficiente para tal fim. Em seguida, ele fala que vai ao Pará morar com o pai que cria gado de leite naquelas terras.

Fala de seus dois irmãos mais novos e passa a contar suas vivências rurais na casa paterna, fala com muito entusiasmo de sua relação com os cavalos e de sua paixão pelas cavalgadas. Porém diz que o pai pega pesado e que não dá moleza pra ninguém, chama pai de “ingorante” demais. Diz isso e mostra uma cicatriz pavorosa na altura de um dos seus tornozelos, era seqüela de uma pisa de cipó de couro que levara do pai por causa de uma travessura sua.

Eu pergunto o que ele andou aprontando, ele fica envergonhado, eu insisto, ele nada. Eu então especulo: - teu pai te pegou namorando com alguma cabrita? Ele ruboriza, Adiel racha de rir, o rapaz, me diz que sou escroto demais, novidade, mas nega.

Termina contando, foi com o irmão levar umas vacas pra um vizinho, no meio do caminho acharam uma plantação de melancia e comeram algumas, as demais pinicaram de faca. Em casa, foi contar ao pai, o pai arretou-se deu-lhe uma surra de cipó de couro, a ferida do tornozelo deu leschmaniose e virou ferida braba, essa o papai tratou fazendo em cima dolorosas compressas de sal.

Seguimos na estrada, ele com sua bíblia volta a pregar, e Adiel propõe que ele ao chegar ao Pará funde uma igreja, um trabalho bem mais leve do que lidar com o gado. Adiel diz assim: tu funda uma igreja, em vez de pedir grana tu diz.. se sua fé é grande ponha um boi, se for menor, ponha um bode e assim por diante.

Diante de uma fala tão sacana desta do poeta, nosso pregador desiste da catequese e passa a conversar as abobrinhas mais amenas. Em Custódia paramos para almoçar, e aí entendemos o que ele quis dizer o que era ser desviado, era o rapaz um fumante inveterado, fato que pudemos comprovar pela quantidade e variedade de cigarros que ele levava na bagagem, segundo Adiel sua bolsa era um verdadeiro fiteiro.

Uma parada em Serra Talhada, meia hora depois descemos em Bom Nome aonde nosso anfitrião Cícero Moraes nos espera. Nos despedimos de nosso divertido parceiro de viagem indo ao encontro da casa paterna no Pará, mais uma monte de histórias de vida de um brasileiro do povo nordestino nas suas idas e vindas em buscar de um espaço de estar no mundo, quem sabe um dia eu faço um cordel sobre o pregador que fumava.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PELEJA VIRTUAL AMISTOSA ENTRE ALLAN SALES E ADIEL LUNA



Allan Sales:
Meu compadre Adiel
Vai cumprindo seu papel
Com repente com cordel
Feliz é teu versejar
Esse nó vai arrochar
Nesse torrão nordestino
É comum nosso destino
No quadrão de beira mar.

Adiel Luna:
És poeta peregrino
De um linguajar ferino
Criticas qualquer cretino
Que queira te encabular
Nunca foste de baixar
A cabeça pra ninguém
Só faz o que lhe convém
No quadrão da beira mar

ALLAN:
E não fazes nhem nhem nhem
Nem puxas saco também
Versejar teu vai além
Na viola a dedilhar
Adiel o teu lugar
É no panteão da glória
Vamos nós fazer história
No quadrão de beira mar

ADIEL:
Nessa minha trajetória
Lidando na oratória
Exigindo da memória
Tudo que possa me dar
Tenho que me orgulhar
De tê-lo como um amigo
Por isso canto contigo
Um quadrão a beira mar

ALLAN:
Não correndo do perigo
Na poesia eu prossigo
Pensando algo eu digo
Adiel eu vou louvar
Poeta és lapidar
Essa viola brejeira
No rojão da gemedeira
No quadrão de beira mar

ADIEL:
Essa nossa brincadeira
É cantiga verdadeira
É verso na regra inteira
Rio correndo pra o mar
E vento que a passar
Espalhando seus rumores
Nos traz mais cheiro e sabores
No quadrão da beira mar

ALLAN:
Poeta dizendo cores
Neste mundo de horrores
Desanca porcos senhores
Os que querem lhe explorar
A cabeça levantar
Vencer o lado obscuro
Poema forte e seguro
No quadrão de beira mar

ADIEL:
Eu vivo pulando muro
À procura de um futuro
Pra me livrar de apuro
Só Deus vem por mim zelar
Minha vida é trabalhar
Buscando por melhoria
Meu sustento é a poesia
No quadrão da beira mar

ALLAN:
Poeta tens alforria
No verso na melodia
Versejas com alegria
O mundo vem encantar
Na poesia se fartar
E toda fala é batuta
Tua verve que se escuta
No quadrão de beira mar

ADIEL:
A minha e a sua luta
É uma eterna disputa
Mas na vida quem labuta
Às vezes tem que penar
Até um dia encontrar
Repouso sossego e paz
Pra mim já ta bom demais
Um quadrão na beira mar

ALLAN:
Na vida a gente faz
Nosso verso satisfaz
E quem na vida é capaz
Inveja faz despertar
Juntos nós vamos criar
És Luna que vem da lua
Talento na voz tão tua
No quadrão de beira mar

ADIEL:
Não há que substitua
A minha arte e a tua
Nosso nome continua
No mais alto patamar
Você não pode parar
Nem devo parar também
Nossa fama vai além
No quadrão da beira mar

ALLAN:
Poeta disseste bem
Não abrindo bem pro trem
Não nos pagam mais vintém
O justo vamos cobrar
E assim só trabalhar
Por uma paga condizente
Somos da classe decente
No quadrão de beira mar.

ADIEL:
O compromisso da gente
É mostrar o excelente
Cordel,canção e repente
Coisas do nosso lugar
Mas se temos de enfrentar
Alguma dificuldade
Nos sobra capacidade
No quadrão da beira mar

ALLAN:
Meu poeta meu confrade
Vamos dizer a verdade
Não quero pela metade
O que vim para buscar
E pro verso completar
Respeitem nosso trabalho
Ou vão sentar num caralho
No quadrão de beira mar

ADIEL:
Não queremos quebrar galho
Nem enfeitar cabeçalho
Ser coringa de baralho
Nem adorno de altar
Viemos pra trabalhar
Desempenhar bom papel
Salve Allan e Adiel
No quadrão da beira mar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O bom forró tem Lirismo Dipensa essa putaria



I
Concordo com meu amigo
Sobre as coisas do forró
Por isso dou no gogó
Ponho lixo no jazigo
Ouvir isso não consigo
Forró com pornografia
No bom gosto a sodomia
Em nome do modernismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
II
Esse show da putanhagem
Exibindo letra torta
Onde a qualidade é morta
No reino da fuleiragem
Apelar pra sacanagem
De vulgar apologia
Onde pobre é melodia
Carece de romantismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
III
Falar da raparigagem
Das brigas de cabaré
Depreciar a mulher
Na mídia só vassalagem
É tosca sua mensagem
Que toca de noite e dia
Dá até uma agonia
Quem apóia tem cinismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
IV
Ouço o Trio Nordestino
Com Petrúcio e Maciel
Acioly o menestrel
Israel um paladino
Azulão forró tão fino
Arlindo na mesma via
Irah linda cotovia
À luz do regionalismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria

V
Xico Bizerra o poeta
Arlindo Moita um danado
Joquinha tão inspirado
Dominguinhos nessa meta
Camarão o grande esteta
Mas tal lixo contagia
Gonzaga reprovaria
Não é falso moralismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
VI
Marcolino no passado
Outros vates no presente
O Jackson foi reluzente
E hoje um lixo safado
Anselmo foi exaltado
Detonou a vil orgia
Que invade a periferia
Parece mau caratismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
VII
E tome avacalhação
Vulgaridades demais
Compositor incapaz
De fazer boa canção
Barrar essa invasão
Tosca radiofonia
Parece patifaria
Torto comercialismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
VIII
Anselmo Alves na luta
Falou e teve coragem
Mau gosto que tem voragem
Empurram coisa fajuta
O bom forró que se escuta
Possui a boa energia
De Seu Luiz nobre cria
Com todo virtuosismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
IX
Bom forró Gonzagueado
Tem valor é cultural
Mas forró comercial
Chamado de estilizado
Escroto e avacalhado
Distante da poesia
Parece ter serventia
De avacalha o erotismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
X
A figura feminina
Ali é vulgarizada
Exibida e arreganhada
Numa forma bem suína
A cultura nordestina
Execra essa latumia
O bom forró tem magia
Não tem porco chauvinismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XI
Carmélia que foi rainha
E Seu Lua foi o rei
E até onde eu sei
Muitos seguem nesta linha
Cilene é uma danadinha
Com Santana nesta guia
Camarão com harmonia
Afirmando não sofismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XII
Seu juiz homem de bem
Um guardião da decência
Proteja essa adolescência
Só nossa lei os detém
Avacalhar não convém
Pra juventude uma fria
Pois o guri e a guria
Deseducam com machismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XIII
Quero forró verdadeiro
Aquele que tem sanfona
Não esse forró da zona
Tão ideal pro puteiro
Quero um forró bem brejeiro
Com sanfona e companhia
Com um verso de alforria
Esse é nosso idealismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XIV
Somente dando um despacho
Um ebó na encruzilhada
Faz sumir essa cambada
E todo esse esculacho
O que brota desse tacho
É mesmo anomalia
Muitos ouvem mas quem chia?
Será medo ou conformismo?
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XV
Forró moderno se fala
Repete no mesmo tema
Como é pobre de poema
Nosso bom senso abala
Consente aqui quem cala
Ante essa coisa sombria
Contratam com alegria
Pras farras do populismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria
XVI
Quero forró de raízes
Que se chama pé de serra
Que tem a cara da terra
Nos variados matizes
Sem desancar meretrizes
Sem descambar pra porfia
Com tal vulgar modismo
O bom forró tem lirismo
Dispensa essa putaria.